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FONTE :
A reportagem abaixo foi feita por Denis Russo Burgierman
com design de Alceu Nunes, da revista Super Interessante.
Reportagem extraída da
Revista Super Interessante de Abril-2002, edição 175.

Câncer, doenças cardíacas, crueldade com os
animais, matança de semelhantes, desastre ecológico... Afinal, será que você
deveria virar um vegetariano?
Comer não é só uma questão de matar a fome. A
decisão sobre que comida colocar no prato tem implicações econômicas,
ambientais, éticas, culturais, fisiológicas, filosóficas, históricas,
religiosas. Embora a porcentagem de vegetarianos venha se mantendo mais ou menos
estável ao longo da história, há um interesse crescente no assunto –
restaurantes naturais e vegetarianos ficam lotados na hora do almoço, tornou-se
comum, pelo menos nas classes médias urbanas, a preocupação em reduzir o consumo
de carne, e surgiu uma indústria bilionária de produtos naturais que, nos
Estados Unidos, já movimenta quase 8 bilhões de dólares.
Esta reportagem não ensina você a comer.
Felizmente, essa ainda é uma decisão pessoal, que depende apenas do seu
julgamento sobre o que é certo e o que é errado e – não menos importante – do
seu gosto. O que essa matéria faz é tentar ajudar na decisão com o máximo
possível de informação insuspeita sobre cada um dos muitos aspectos envolvidos
nessa importante decisão. Se você, depois de terminá-la, vai devorar um brócolis
ou um cheeseburger, já não é assunto nosso. Só esperamos que, terminado o texto,
ao decidir o que comer você saiba o que está fazendo e o que isso implica
O QUE É CARNE?
A faca desce macia, cortando sem esforço o
pedaço de picanha. Dourada e crocante nas bordas, tenra e úmida no centro. Você
põe a carne na boca e mastiga devagar, sentindo o tempero, a maciez, a
temperatura. O sumo que escorre dela enche a boca e, com ele, o sabor
incomparável. Carne é bom.
Mas que tal assistir à mesma cena sob outra
perspectiva? No prato jaz um pedaço de músculo, amputado da região pélvica de um
animal bem maior que você. Com a faca, você serra os feixes musculares. A
seguir, coloca o tecido morto na boca e começa a dilacerá-lo com os dentes. As
fibras musculares, células compridas – de até 4 centímetros – e resistentes, são
picadas em pedaços. Na sua boca, a água (que ocupa até 75% da célula) se
espalha, carregando organelas celulares e todas as vitaminas, os minerais e a
abundante gordura que tornavam o músculo capaz de realizar suas funções,
inclusive a de se contrair. Sim, meu caro, por mais que você odeie pensar que a
comida no seu prato tenha sido um animal um dia, você está comendo um cadáver.
Carne é tecido animal, em geral muscular. As fibras que a compõe são feixes de
células musculares, enroladas umas nas outras. Em volta delas há uma cobertura
de gordura, cuja função é lubrificar o músculo e permitir que ele relaxe e se
contraia suavemente. Ou seja, não há carne sem gordura.
A diferença entre carne branca e vermelha é a
quantidade de ferro no tecido – o mesmo mineral que dá cor ao sangue. As células
de animais grandes, como o boi, são ricas de uma molécula chamada mioglobina,
que contém ferro. Peixes e galinhas, por terem o corpo menor, não precisam de
reservas tão grandes de nutrientes nas células e, por isso, têm menos
mioglobina. Animais mais velhos têm carne mais vermelha – isso explica a
brancura do frango industrializado, abatido antes dos dois meses, se comparado à
galinha caipira. Essa última tem mais tempo para acumular mioglobina nas
células.
NÚMEROS, NÚMEROS, NÚMEROS
Há no mundo 1,35 bilhão de bois e vacas.
Criamos 930 milhões de porcos, 1,7 bilhão de ovelhas e cabras, 1,4 bilhão de
patos, gansos e perus, 170 milhões de búfalos. Some todos eles e temos uma
população de animais quase equivalente à humana dedicando sua vida a nos
alimentar – involuntariamente, é claro. E isso porque ainda não incluímos na
conta a população de frangos e galinhas abastecendo a Terra de ovos e carne
branca: 14,85 bilhões. Só no Brasil há 172 milhões de cabeças de gado bovino –
uma para cada cabeça humana. Nosso rebanho bovino só é menor que o da Índia,
onde é proibido matar vacas. Na média, um brasileiro come perto de 40 quilos de
carne bovina por ano – ou seja, uma família de cinco pessoas devora uma vaca em
12 meses. Somos o quarto país do mundo onde mais se come carne bovina . Um
brasileiro médio come também 32 quilos de frango e 11 quilos de porco todo ano.
TODOS OS TIPOS DE VEGETARIANOS
Vegetarianos não são todos iguais. Conheça as
diferenças.
Ovolactovegetarianos
Não comem carne de nenhum tipo, mas consomem ovos, leite e derivados. Em geral,
quando alguém diz que é “vegetariano”, é essa dieta que ele segue.
Lactovegetarianos
Provavelmente o mais numeroso dos grupos, já que essa dieta é predominante no
sul da Índia – por razões religiosas. Nada de carne, mas leite e derivados estão
liberados. O ovo é terminantemente proibido, por conter a “vibração da vida”.
Vegans
Não consomem nada de origem animal: carne, ovos, leite, mel. Roupas de couro, lã
e seda também estão proibidas.
Semivegetarianos
Aquelas pessoas que afirmam ser vegetarianas, mas abrem exceções para peixes ou
aves. São vistos com desdém pelos outros grupos. A principal razão para essa
dieta, que recusa só a carne vermelha, é o cuidado com a saúde.
Macrobióticos
Dieta tradicional japonesa, que pode ser vegan, ovolactovegetariana ou incluir
peixe. Há várias restrições – a dieta acompanha as estações do ano, o cardápio
tem que incluir uma árvore toda, da semente ao fruto. Como foi elaborada no
Japão, a macrobiótica não contempla a realidade brasileira (as estações do ano,
por exemplo, são diferentes aqui). Isso pode levar a deficiências alimentares.
Crudivorismo
Só comem vegetais crus. É preciso cuidado com essa dieta, porque ela exclui os
grãos, que são as melhores fontes de proteína e ferro dos vegetarianos. Há risco
de desnutrição.
Frugivorismo
Os frugivoristas não só rejeitam carne, como evitam machucar ou matar vegetais.
Por isso, comem apenas aquilo que as plantas “querem” que seja comido: frutas e
castanhas. Consideram o consumo de folhas, caules e raízes uma violência. A
dieta não é das mais saudáveis, já que é pobre em proteínas e em minerais.
CARNE FAZ MAL?
Quem come mais carne – especialmente carne
vermelha – tem índices maiores de câncer e de enfarte, as duas principais causas
de morte do planeta. É o que dizem as estatísticas. Carne faz mal, então? Não é
tão simples. Nos últimos 30 anos, as autoridades dos Estados Unidos vêm
aconselhando os americanos a diminuir a ingestão de carne vermelha e manteiga
por causa de suspeitas de que a gordura saturada presente em grande quantidade
nesses alimentos aumenta a taxa de colesterol e, com isso, causa ataques
cardíacos. O conselho virou norma no mundo todo – a Organização Mundial da Saúde
e vários governos adotaram a política de reduzir a gordura saturada. Tudo muito
bom, só que tem algumas peças que, mesmo após três décadas de pesquisas,
continuam não se encaixando no quebra-cabeças. Uma delas é a Europa
mediterrânea. Lá, desde que terminaram os rigores da Segunda Guerra, o consumo
de carne vermelha tem aumentado. Pois bem: a taxa de doenças cardíacas diminuiu
no mesmo período. E a França? O país da pâtisserie, fã ardoroso das carnes
vermelhas de todo tipo, onde qualquer almoço começa refogando o que quer que
seja em manteiga derretida, tem uma das mais baixas taxas de mortes por ataque
cardíaco do mundo.
No ano passado, Gary Taubes, correspondente da
revista americana Science e um dos principais escritores de ciência do mundo,
escreveu um longo artigo no qual classificava o medo da gordura saturada como
“dogma”. Taubes afirma que, mesmo com tanta pesquisa, não há prova de que
gordura saturada e enfartes estão ligados. E vai além: diz que a propaganda do
governo só serviu para fazer com que os americanos comessem mais – ao evitar a
gordura, eles acabavam ingerindo mais carboidratos, mais açúcar, para manter a
quantidade diária de calorias (o corpo tende a reclamar quando as calorias são
insuficientes para saciá-lo – isso se chama fome). Resultado: o índice de
obesidade passou de 14% para 22% no país. E obesidade, sabidamente, é um sério
fator de risco para doenças cardíacas. A maior parte do mundo médico ainda
acredita na malignidade da carne vermelha e da manteiga. (“Não tenho dúvidas da
relação entre gordura saturada e doenças cardiovasculares”, afirma o
nutricionista argentino Cecílio Morón, oficial da agência da ONU que cuida de
alimentação, a FAO. Denise Coutinho, que coordena a política de nutrição do
governo brasileiro, repetiu quase as mesmas palavras.) Mas o artigo de Taubes
serviu para mostrar que nutrição não é baseada numa relação simples de causa e
conseqüência, tipo “mais carne, mais ataques cardíacos”. Mas, afinal, o que
sobra da discussão? Dietas de países gelados como a Escócia e a Finlândia, onde
o único vegetal consumido em quantidade é o tabaco, estão equivocadas. Os altos
índices de ataques cardíacos por lá são prova incontestável. Mas os franceses, e
os mediterrâneos em geral, devem estar fazendo alguma coisa certa. Sua dieta é
variada e rica em vegetais frescos, azeite de oliva (tido como redutor de
colesterol), vinho e carne de todos os tipos. Ao contrário dos americanos, esses
povos comem com calma, em ambientes descontraídos. O que os está salvando dos
ataques cardíacos? Os legumes, o azeite, o vinho, a conversa mole depois do
almoço, a brisa marinha? Ninguém sabe ao certo. Provavelmente é uma conjunção de
todos esses fatores.
O raciocínio vale em parte para o câncer
também. Os comedores de carne morrem mais de câncer de intestino, boca, faringe,
estômago, seio e próstata. Ainda assim, o elo entre carne e câncer é meio
frouxo. Tudo indica que, se é que a carne aumenta mesmo a incidência de câncer,
sua influência é bem pequena – um fator entre muitos. Agora, de uma coisa
ninguém tem dúvidas: vegetais fazem bem. Uma dieta rica em frutas, legumes e
verduras claramente reduz as chances de ter câncer no esôfago, na boca, no
estômago, no intestino, no reto, no pulmão, na próstata e na laringe, além de
afastar os ataques cardíacos. Frutas e legumes amarelos têm caroteno, que
previne câncer no estômago; a soja possui isoflavona, que diminui a incidência
de câncer de mama e osteoporose; o alho tem alicina, que fortalece o sistema
imunológico; e por aí vai – essa lista poderia ocupar o resto da revista. Em
resumo: não está bem claro se a carne faz mal. Muito bem, pelo jeito, não faz.
Mas, para ser saudável, o importante é ter uma dieta rica e variada de vegetais.
Seja ela vegetariana ou não.
DÁ PRA VIVER SEM CARNE?
Dá! O vegetarianismo exige cuidados e
conhecimentos de nutrição, mas com certeza pode-se ter uma dieta saudável sem
carne. Aliás, o fato de exigir cuidados a faz mais saudável. Um vegetariano
tende a prestar mais atenção no que come e nos efeitos disso sobre seu corpo. E
isso, em si, já é um hábito salutar. Muitos nutricionistas afirmam que as
crianças não devem, de maneira nenhuma, ficar sem proteína animal, sob risco de
terem o desenvolvimento cerebral prejudicado. Essa regra deve ser seguida a não
ser que os pais saibam muito bem o que estão fazendo, conheçam as propriedades
de cada alimento e – não menos importante – que a criança queira.
Os ovolactovegetarianos não têm problemas com
proteínas porque os derivados de animais são tão protéicos quanto a carne. O
perigo é que leite e ovos são pobres em minerais, especialmente ferro, que é
fundamental para a saúde – ele é usado para construir a hemoglobina, uma
molécula cuja função é carregar o oxigênio do pulmão para as células. Sem ferro,
portanto, as células podem morrer. Isso é a anemia.
Ou seja, ovolactovegetarianos não podem basear
sua dieta no leite, nos ovos e nos queijos, sob risco de ficarem sem nutrientes
valiosos. É preciso comer muitos e variados vegetais, em especial soja, feijão,
brócolis, couve, espinafre – todos ricos em ferro. A quantidade é fundamental,
porque o ferro dos vegetais é menos absorvido pelo corpo que o de origem animal.
Uma boa dica é acompanhar as refeições com suco de laranja, já que a vitamina C
ajuda na absorção do ferro. Outra fonte de ferro é a casca de grãos como o arroz
e o trigo. Por isso, eles devem ser sempre integrais. Denise Coutinho,
responsável pela política nutricional do governo federal, adiantou à Super que
está em estudo uma medida para tornar a fortificação com ferro obrigatória nas
farinhas de trigo e de milho. A medida, que visa combater a desnutrição, vai
acabar ajudando a vida dos vegetarianos.
Já para os vegans, a palavrinha mágica é
“soja”. Se você não gosta desse grão ou é alérgico a ele, virar vegan vai ser
bem mais penoso. A questão é a seguinte: suprir suas necessidades protéicas com
carne é fácil. “Afinal, você é feito de carne”, diz Pedro de Felício,
especialista em produtos de origem animal da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp). Um bife tem a mesma composição que os músculos do seu corpo. As
proteínas das quais ele é feito são, também, iguais às suas, feitas com os
mesmos aminoácidos. Portanto, contêm tudo o que você precisa. Proteínas vegetais
são mais simples. Elas não contêm todos os componentes necessários. A soja,
entre os vegetais, é o que tem as proteínas mais completas. Há outras fontes de
proteína, como o feijão, mas, se você não come soja, vai precisar de grandes
quantidades e de muita variedade de vegetais para juntar todos os aminoácidos de
que precisa. “Desde que sigam essa regra, os vegans tendem a ter uma dieta até
mais equilibrada que os ovolactovegetarianos, já que não ocupam lugar no
estômago com ovos e leite, que são pobres em vários nutrientes”, diz o
nutricionista vegan George Guimarães.
Uma questão para os vegans é a vitamina B12,
que o corpo não produz e não existe em vegetais. A B12 é fabricada por bactérias
e pode ser encontrada nos animais (que comem bactérias ao ciscar ou pastar). Mas
suprir as necessidades de B12 é fácil: qualquer biscoito ou cereal com a palavra
“fortificado” no rótulo contém a vitamina. Ela também é vendida em cápsulas.
SOMOS VEGETARIANOS POR NATUREZA?
Não. “O homem tem dentes pequenos e sistema
digestivo curto, características de onívoros”, afirma o antropólogo físico
Walter Neves, da Universidade de São Paulo, maior especialista brasileiro em
homens pré-históricos. Ou seja, nosso organismo está preparado para comer de
tudo, inclusive carne. Somos como o chimpanzé, que, além de plantas, cata
insetos, lagartos e roedores. E diferentes do gorila, que só come plantas e,
para isso, tem dentes molares imensos e uma barriga enorme (se você também tem
uma, por favor não tome isso como uma comparação). Os dentes grandes servem para
criar mais área de mastigação e, assim, triturar melhor as folhas e tirar delas
os escassos nutrientes. A barriga abriga o intestino e o estômago, que são bem
maiores para dar mais tempo ao organismo de absorver o que interessa.
Walter afirma que, num passado longínquo, nos
alimentávamos como chimpanzés. Mas há 2,5 milhões de anos nossa dieta mudou.
Começamos a fabricar instrumentos de pedra e as novas armas permitiram que
incluíssemos no cardápio a carne de grandes mamíferos. Assim, nossa ingestão de
proteína animal aumentou demais. “Sem isso, não teríamos desenvolvido um cérebro
grande”, diz Walter. O aumento súbito de proteína na dieta permitiu que nosso
corpo investisse mais recursos no sistema nervoso. Hoje, de 30% a 40% de tudo o
que comemos vira combustível para fazer o cérebro funcionar. Sem o aumento na
ingestão de carne, isso jamais seria possível.
Mas, na mesma época, surgiu um gênero de
humanídeos estritamente vegetarianos. Conhecidos como Paranthropus, eles tinham
grandes molares, eram barrigudos e não comiam animais de nenhuma espécie, nem
insetos. Esses humanos vegetarianos conviviam com os humanos caçadores – há um
lago no Quênia onde foram encontradas ossadas das duas espécies, com
aproximadamente a mesma idade, a poucos quilômetros de distância.
O Paranthropus se extinguiu há 1,2 milhão de
anos, provavelmente porque sua dieta mais restritiva o atrapalhou na competição
com nossos ancestrais generalistas. Nossos primos vegetarianos deviam ser muito
menos espertos que seus contemporâneos Homo, como atesta o tamanho de seu
cérebro. “Eles investiram os recursos do organismo em dentes, os Homo investiram
no cérebro”, diz Walter.
Quer dizer que precisamos comer carne para
raciocinar? Não. Há 2,5 milhões de anos era assim porque não sabíamos plantar e
nossa dieta quase não incluía plantas protéicas. Os únicos vegetais que comíamos
eram frutas, folhas e raízes. Hoje, é possível ter uma dieta rica em proteínas
sem carne.
VACA, A ONIPRESENTE
Há quem diga que o problema de comer carne é
moral: não teríamos o direito de matar para comer. Mas, se você acha que basta
parar de comer carne para acabar com a matança, está enganado. Há muito mais
produtos no mercado que incluem animais mortos do que imagina a nossa vã
filosofia.
Para começar, boa parte da indústria de
vestuário depende de animais. O couro, você sabe, é a pele de bichos abatidos.
Para separar o fio de seda, é preciso ferver o bicho-da-seda. Além disto, filmes
fotográficos e de cinema são recobertos por uma gelatina, retirada da canela da
vaca. Ou seja, um vegan radical só tira fotos digitais. Dos pés bovinos saem
também substâncias usadas na espuma dos extintores de incêndio. O sangue bovino
rende um fixador para tinturas e a gordura acaba em pneus, plásticos,
detergentes, velas e no PVC. Cremes de barbear, xampus, cosméticos e dinamite
derivam da glicerina, substância que contém gordura bovina. A quantidade de
medicamentos feitos com pedaços de gado, do pâncreas ao cordão umbilical,
passando pelos testículos, é imensa.
Há um pouco das vacas também em vários
produtos da indústria alimentícia – e não estamos falando só de bife à
parmegiana. A gelatina deve a consistência ao colágeno arrancado da pele e dos
ossos. Aliás, quase toda comida elástica contém colágeno – da maria-mole ao
chiclete. Os queijos curados são feitos com uma enzima do estômago do bezerro.
Além dos bovinos, vários outros animais são usados pela indústria de comida.
Vegans devem ficar de olho nos rótulos e evitar dois corantes: coxonilha e
carmin. O primeiro, usado para tingir de azul, é feito de besouros moídos. O
segundo, que pinta de vermelho, é feito de lesmas amassadas.
O PLANETA PRECISA DE CARNE?
Na verdade, se todos fossem vegetarianos, é
provável que não houvesse tanta fome no mundo. É que os rebanhos consomem boa
parte dos recursos da Terra. Uma vaca, num único gole, bebe até 2 litros de
água. Num dia, consome até 100 litros. Para produzir 1 quilo de carne, gastam-se
43 000 litros de água. Um quilo de tomates custa ao planeta menos de 200 litros
de água.
Sem falar que damos grande parte dos vegetais
que produzimos aos animais. Um terço dos grãos do mundo viram comida de vaca. No
Brasil, o gado quase não come grãos – graças ao clima é criado solto e se
alimenta de grama. Mas boa parte da nossa produção de soja, uma das maiores do
mundo, é exportada para ser dada ao gado. Outra questão é que a pecuária bovina
estimula a monocultura de grãos. Num mundo vegetariano haveria lavouras mais
diversificadas e teríamos muito mais recursos para combater a fome.
E não se trata só de comida. A pecuária esgota
o planeta de outras formas. “Para começar, ocupa um quarto da área terrestre e
não pára de se expandir”, diz o ativista vegetariano Jeremy Rifkin. A pressão
para a derrubada das florestas, inclusive a amazônica, vem em grande parte da
necessidade de pasto. Entre os danos ambientais causados pelo gado, está também
o aquecimento global. Os gases da flatulência de bois e ovelhas – não, isso não
é uma piada – estão entre os principais causadores do efeito estufa.
COMO VIVEM – E MORREM OS ANIMAIS?
BOI
No Brasil, os bois são criados soltos. Provavelmente, essa forma de criação é
menos terrível que a de países frios do Cone Sul e da Europa, onde os invernos
matam o pasto e fazem com que os animais fiquem fechados em áreas apertadas,
comendo só ração. Isso não quer dizer que seja o melhor dos mundos. Os animais
muitas vezes passam fome, vivem cheios de parasitas e apanham copiosamente. “O
manejo no Brasil é muito bruto”, diz o etólogo Mateus Paranhos da Costa, da
Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Jaboticabal, especialista no assunto.
Não existe aqui no Brasil a produção de vitela
– carne muito branca e macia de bezerros mantidos em jaulas superapertadas para
evitar que se movimentem. Para acentuar a brancura da carne, os criadores não
permitem que o bezerro coma grama ou grãos, só leite – a dieta tem que ser pobre
em ferro e em outros nutrientes, forçando uma anemia no animal. Com isso,
torna-se necessário o consumo de antibióticos, para diminuir o risco de
infecções do animal desnutrido. “A vitela deveria ser proibida no mundo
inteiro”, afirma o agrônomo e etólogo Luiz Carlos Pinheiro Machado Filho,
especialista em técnicas de manejo da Universidade Federal de Santa Catarina.
Para matar um boi, primeiro se dá um disparo
na testa com uma pistola de ar comprimido. O tiro deixa o animal desacordado por
alguns minutos. Ele então é erguido por uma argola na pata traseira e outro
funcionário corta sua garganta. “O animal tem que ser sangrado vivo, para que o
sangue seja bombeado para fora do corpo, evitando a proliferação de
microorganismos”, diz Ari Ajzenstein, fiscal do Serviço de Inspeção Federal
(SIF), que zela para que as regras de higiene e de bons tratos no abate sejam
cumpridas.
Em 1997, a ativista de direitos dos animais
americana Gail Eisnitz escreveu o bombástico livro Slaughterhouse (“Matadouro”,
inédito no Brasil), no qual acusava os matadouros de sangrar muitos animais
ainda conscientes. “Não vou dizer que isso não acontece no Brasil, mas não é
freqüente”, afirma Mateus Paranhos.
O abate a marretadas está proibido no país, o
que não quer dizer que não aconteça – já que quase 50% dos abates são
clandestinos e, portanto, sem fiscalização. O problema da marretada é que não é
fácil acertar o boi com o primeiro golpe. Muitas vezes, são necessários dezenas
para desacordá-lo.
GALINHAS
Essas quase sempre levam uma vida miserável. Vivem espremidas numa gaiola do
tamanho delas. As luzes ficam acesas até 18 horas por dia – assim elas não
dormem e comem mais (isso acontece principalmente com as que produzem ovos).
Seus bicos são cortados para que não matem umas às outras e para evitar que elas
escolham que parte da ração querem comer – caso contrário, ciscariam apenas os
grãos de seu agrado e deixariam de lado alimentos que servem para que engordem
rápido.
A morte é rápida. As galinhas ficam presas
numa esteira rolante que passa sob um eletrodo. O choque desacorda a ave e, em
seguida, uma lâmina corta seu pescoço. O esquema é industrial. Hoje, nos Estados
Unidos, são abatidas, em um dia, tantas aves quanto a indústria levava um ano
para matar em 1930. Nas granjas de ovos, pintinhos machos são sacrificados numa
espécie de liquidificador gigante. Parece horrível, mas é a mais indolor das
mortes descritas aqui.
PORCOS
Outros azarados. Não têm espaço nem para deitar confortavelmente. “São
confinados do nascimento ao abate”, diz Pinheiro Filho. As gestantes são
forçadas a parir atadas a uma fivela, apertadas na baia. O abate é parecido com
o de bovinos, com a diferença que o atordoamento é feito com um choque elétrico
na cabeça e que o animal é jogado num tanque de água fervendo após o
sangramento, para facilitar a retirada da pele. Gail Eisnitz afirma, em seu
livro, que muitos porcos caem na água fervendo ainda vivos, mas isso
provavelmente é incomum.
PATOS E GANSOS
Os mais infelizes dos nossos alimentos provavelmente são os gansos e patos da
França. O foie gras, um patê tradicional e sofisticado, é feito com o fígado
inflamado das aves. Os produtores colocam um funil na boca delas e as entopem de
comida por meses, fazendo com que o fígado trabalhe dobrado. Isso provoca uma
inflamação e faz com que o órgão fique imenso, cheio de gordura. Ou seja, o
patê, na prática, é uma doença. Há movimentos pedindo o banimento do produto.
Não se produz foie gras no Brasil.
O QUE FAZER A RESPEITO?
Há uma verdade inescapável: ao comermos carne,
somos indiretamente responsáveis pela morte de seres que têm pai, mãe, sofrem,
sentem medo. “Os vertebrados sentem dor”, diz Rita Paixão, fisiologista e
bioeticista da Universidade Federal Fluminense. Isso é um fato e, se você
pretende continuar comendo carne, é bom se acostumar com ele. Mas podemos ao
menos minimizar o sofrimento, escolhendo comidas que impliquem em menos
crueldade. O mercado oferece alternativas.
Uma delas são os ovos caipiras, produzidos por
galinhas criadas soltas, em companhia de galos, sob o sol – um desinfetante
natural –, comendo o que querem com seus bicos inteiros. A maior granja
brasileira de ovos caipiras é a Yamaguishi, que distribui “ovos da galinha
feliz” pela região de Campinas e em São Paulo. “Os ovos que nós produzimos...
quer dizer, que nossas galinhas produzem”, diz Marcelo Minutti, gerente da
granja, “são mais saborosos e não contêm substâncias químicas.”
Frangos caipiras, criados em condições
semelhantes, também já são encontrados nos supermercados. Sua carne é mais dura,
mas é mais saborosa e a chance de conter substâncias perigosas, como hormônios e
antibióticos, é mínima. A rede Carrefour, graças a uma política da sede
francesa, é uma das que oferece o produto. Ele faz parte da linha “garantia de
origem”, só de produtos feitos com essa preocupação.
Os bois certificados com “garantia de origem”
são bem alimentados e criados por pessoas treinadas por especialistas em
comportamento animal para entender como ele pensa e manejá-lo sem violência.
“Agora vamos produzir porcos com origem garantida, criados soltos”, diz o
veterinário Adolfo Petry, responsável, no Carrefour, pelos produtos animais
garantidos com o selo. Produtos assim custam entre 50% e 100% a mais que os
convencionais. Apesar do interesse crescente do consumidor em diminuir a
crueldade (numa pesquisa feita pela Super na internet, 85% das 2408 pessoas
disseram que deixariam de comer alimentos se soubessem que eles causam
sofrimento para animais), a procura por esses produtos ainda é muito pequena.
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